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Antes de mais, um desabafo. Eu gostava muito de um dia poder fazer exame para 4.º Dan, mas a minha consciência diz-me que tenho mesmo de relatar o magnífico treino com que o nosso Instrutor-Chefe, Sensei Álvaro Silva, nos resolveu brindar no passado dia 25 de Agosto de 2008.
(o pessoal avisou-me que ele não era para brincadeiras e que o seu sentido de humor era parecido com o do Baldrick mas, mesmo assim, decido arriscar)
Ora aqui vai ...
Desconfiei que a coisa não ia correr lá muito bem porque ao entrar no Dojo dei de caras com o meu irmão. Pensei "Bom! A partir de agora, todo o cuidado é pouco...", mal sabia eu ...
À hora marcada, e para variar, lá apareceu ele - o grande Sensei. Sorridente e confiante, como sempre.
Depois da troca de cumprimentos e da conversa de circunstância tipo "Então já criáste alguma Associação nova hoje?", começámos o treino à voz de Shugo (nunca cheguei a perceber quem é que "chegou", a porta até já estava fechada...).
Ainda em seiza, e logo após a saudação inicial, sai-se com esta "Sei que é uma indelicadeza da minha parte, mas a que horas é o jantar?". G'anda lata, ainda não tinha feito nada e já só pensava em abocanhar. Quando fôr um grande mestre hei-de seguir estes ensinamentos.
Começámos o aquecimento com uns exercícios que, a julgar pela cara do restante pessoal, eram de um gosto algo duvidoso. Anquinhas para um dos lados, bracinhos para o outro, mas do mal o menos. O exercício que se seguiu é que foi do melhorio. Cada um foi buscar um Tchi-tchi (para quem não sabe é uma lata de leite em pó pintada de cinzento e cheia de cimento, com um pau espetado lá dentro e que vai funcionar como cabo) e deitámo-lo no chão, à nossa frente. De seguida apoiámo-nos nele como para fazer flexões de braços, mas mantivémos o corpo empranchado sem nos mexermos. Ao fim de dois minutos (que mais pareceram 2 meses...) o Sensei diz "Aguentem, que este exercício é muito bom para os estabilizadores". Mas que estabilizadores? O suor não parava de cair, os braços tremiam como canas verdes, os abdominais doíam como o diabo e as mãos, apoiadas nas latinhas, faziam doer os pulsos até mais não, já as latas pareciam que tinham vida própria e queriam fugir do ginásio.
Pensei para comigo, isto não pode piorar. Diz-me o Sensei "Ai não pode?". Até me arrepiei todo, mas o gajo agora lê pensamentos?
Pediu-nos então que executássemos algumas sequências em velocidade. Como é nosso apanágio, demos o nosso melhor. O Sensei pestanejou duas vezes e perguntou ao Sensei Ramalho se não tinha por lá nenhuma faca. Mau! Mas será que a nossa técnica é assim tão ruim que ele prefere suicidar-se a corrigir-nos? "Não, facas não tenho, mas tenho ali uns bastões em pau-ferro. Servem?". "Calma Sensei!!!", digo eu, "Nós conseguimos fazer melhor...dê-nos mais uma oportunidade...".
Ele olha-me de lado (como é típico dos Açoreanos de olhos azuis) e esboça um sorriso.
Novo arrepio.
"Não se preocupem, hoje não é o meu dia. Mas já o vosso ...". Nisto, um coro de vozes faz-se ouvir em uníssono:"Sensei, acho que deixei uma coisa ao lume.", diz a Rita."Tenho os TPC para fazer, posso sair?", diz o André. "Posso ir com ele?", diz o Carlos. "A minha mulher quer-me em casa às 9:30", diz o Orlando. "Eh pá! Temos de mudar o óleo ao carro", dizem os Brós Ramalho."Porra pá, eu é que não fico aqui sózinho!", diz o Sensei Ramalho.
"Tá bem! Por esta passam...mas já sabem que eu tenho memória de elefante!". Outra! O que é que isto quer dizer? Que ele sabe onde guarda os amendoins ou que toca o sino sempre que lhe devolvem o troco da bica? (*)
Um pouco mais adiante no treino e perante a ineficácia das nossas técnicas, o Sensei, bondosamente, resolve exemplificar qual a diferença entre uma técnica feita por nós e uma técnica executada por um profissional da matéria. Coloca-se à minha frente e, sem delongas, afinfa-me um Oi-Tzuki na boca do estômago (o que me faz dar dois passos para trás...). Estóico, dou dois passos à frente e tento retomar a posição inicial. Ainda não tinha terminado o avanço e assumido a posição de Heiko-Dachi, e já novo Oi-Tzuki me entrava boca do estômago adentro... Dez socos depois, em agonia plena, reconheci que tinha alguma dificuldade em contrair a boca do estômago, pelo que, se o Sensei não levasse a mal, preferia ver outra parte do meu corpo massacrada, sugestão que ele, misericordiosamente, aceitou.
Ainda agora, passadas praticamente 24 horas, quando respiro fundo me lembro dele e dou graças aos céus por ter sido um dos escolhidos...
Sensei que é Sensei, tem a obrigação de prestar atenção a todos os seus alunos e, assim sendo, ele decidiu que o David também tinha direito à vida (ou seria à dor?) e chamou-o para exemplificar umas Bunkai de Saifa.
Nunca tinha visto a gadelha do David mexer-se e remexer-se tanto. Ele era "técnicas" nas costelas flutuantes, eram "chaves" aos pulsos, eram "toques" nos tendõezinhos mais tenrinhos que o corpo tem. Foi uma maravilha. Quem reparasse atentamente na cara do David podia aperceber-se de quão gratificante a experiência estava a ser, de tal forma que, qual forcado rabejador, o Daniel enche o peito de ar, coloca as mãos nas ancas e decide que está na hora de poupar o irmão, pelo que se oferece para ir para as mão do Sensei...
Ele era Daniel para a esquerda, Daniel para a direita, Daniel para cima, Daniel para baixo ... como dizia aquele anúncio da água "...tudo com Daniel .. Daniel com tudo..."
No final do treino, tivémos ainda a oportunidade de fazer 10 minutos de meditação em Seiza, que nos fez sentirmos-nos orgulhosos dos nosso atletas paraolimpicos, dado que da cintura para baixo já não se sentia nada.
Por tudo o que acima fica dito, quero aqui deixar um grande obrigado pelo treino ministrado ao Sensei Álvaro Silva e agradecer ao Sensei Ramalho pela magnífica ideia da organização deste treino ansiando pelo próximo que espero não demore muito.
  
alguns dos sobreviventes (em primeiro plano) ...
(*) Nota: No 1.º Congresso de Artes Marciais que decorreu em Viseu, também havia lá um elefante que tocava o sino...
***** Última actualização ****
Depois de vários telefonemas, em que me pareceu ouvir ao fundo uns sininhos - e até parecia que cheirava a incenso - e que terminavam, invariavelmente com o som OHMMM... e para que não subsistam mais dúvidas sobre a autoria deste texto, resolvi fazer jus à vasta equipa que esteve por trás dele.
São eles:
ideia original: Futuro Dr. Criminalista David Ramalho
texto: Dr. Sensei Daniel Ramalho
apoio moral: Mestre José Ramalho
motivador: Carlos Ferreira
redacção: Manuel (com as mãos nas ancas)
correcção ortográfica : André (em 2.º plano)
coordenador do grupo de trabalho: Rui Valadas
apoio jurídico: Sr. Dr. Advogado Luis Costa
publicação: Jorge Peixoto
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