Pois é. Desta é que foi. Finalmente fui a Inglaterra, quer dizer, mais ou menos, porque de Inglaterra só conheci os Dojos, o Pub onde comi que nem um Rei(zinho) na companhia de uma amigas de nome Carlile (Carlota para os mais intimos), as linhas de comboio e os chamuças que estavam em tudo o que era sítio com o seu característico ( e muito british ) cheiro a Jean Paul Caril.
Eles até tinham um presépio feito só de personagens chamuças. Um chamuço Pai, uma chamuça Mãe, um chamuço filho e duas vacas (nós temos um burro...). Deslumbrante era a chamuça Cadente ...

A minha vida durante aqueles 5 dias foi treinar, dormir, comer e aturar o Manel e o Rui (Pavarotti) que não fizeram um único intervalo no seu feitio extremamente peculiar.
O Manel, poço de ignorância - ou não frequentasse ainda a 4.ª classe - não parava de me surpreender. Não houve uma única vez que abrisse a boca para dizer o que quer que fosse que se aproveitasse.
O Rui, parecia um "magala" acabo de sair da recruta. Até para os indianos olhava e dizia "já se comia...". Não cheguei a perceber se era do omnipresente cheiro a caril, se eram saudade de casa... O meu receio era que, como dormiamos todos na mesma camarata (a nossa chama-se "Bunker House", porque ficava na cave) não fosse o gajo ter um daqueles ataques de saudades de casa e saltar-me para cima enquanto eu dormia. Deve ter sido a pensar nesta hipótese que a Ligia me obrigou a levar pijama - era azulinho, mas era pijama...
 
O Carlos, que quando saiu de Portugal não "pescava" nada de inglês, para o fim já dizia "Uone offe diz pliaze!", enquanto exibia orgulhoso um pacote de açúcar... O mais engraçado é que as bifas deram-lhe mesmo uma recarga de pacotes.
Já o nosso majestoso Mestre, estava sempre preocupado com o nosso bem-estar.
Ainda o estou a ouvir a perguntar "Manel, já comeste hoje?" e, perante o aceno de cabeça retorquir, "Carlos, dá-lhe um calduço!".
Os treinos foram o que se esperava. Longos e técnicos. Num destes treinos tive oportunidade de treinar de igual para igual com os melhores entre os melhores, e foi vê-los a fugir à minha frente, gritando como possessos e desejando que eu não conseguisse arranjar boleia para o próximo treino.
Era comum ouvi-los dizer quando tinhamos exercícios aos pares ( ou trios...) "You! Again??!!". E eu respondia "Yessss, you are the lucky one..." (em português: "SSSSim, és um bastardo sortudo...).
 
O mais difícil era atravessar as ruas. Os gajos conduzem fora de mão e, mesmo que o nosso cérbero nos diga que estamos a olhar para o lado correcto antes de atravessar, o nosso "cuzinho" não sabe e arrepia-se todo ... é uma sensação do outro mundo ...
Giro, giro, foi a passagem no controle de segurança do aeroporto de Lisboa. Passámos todos praticamente ao mesmo tempo, só que quando olhei para o lado não vi ninguém. "Mistério! Onde é que os gajos se enfiaram?". Eles só tinham de passar pelo meio dos ferrinhos e levantar as mochilas do lado de lá do Raio-X, como é que se perderam? Terão sido teleportados para um Planeta distante povoado por Manéis?
Olhando com mais atenção consegui deslindar o enigma. O Ramalho tinha tentado passar com o gel de banho na bagagem de mão (que agora é proibido) e por isso teve de o deitar fora, para não voltar para o Check In.
O Carlos que parece um Líbio e ia com um lenço à Kadaffi enrolado ao pescoço, foi mandado parar depois de passar o detector de metais e a menina perguntou-lhe "O senhor fala português?". Ele olhou para ela de lado e pestanejou. Ela repetiu "O senhor fala português?" e ele respondeu "Claro! f*=$#, sou português!". "Então", disse ela, "se fala português porque é que leva líquidos na mochila?". "Líquidos? Eu? Deve estar enganada!".
Ela pede-lhe que abra a mochila e tire para fora o pacote que ele levava. "Então isto o que é?", pergunta ela. "É sumo minha burra. Então tu chamas líquidos aos sumos? Já me estavas a baralhar...g'anda bimba.".
O senhor tem de deitar o pacote para o lixo, ou voltar para o Check In.
"Ouve, deves estar a brincar comigo. Achas que vou deitar isto fora? Nem pensar!". "Nesse caso terá de consumir os líquidos, dado que não pode embarcar com eles.", diz ela. "Tudo Bem!". Então abanca ao lado do polícia que está a controlar o Raio-X, saca de 2 sandes de couratos e começa a beber o sumo e a comer as sandes, enquanto dizia com a voz discreta que o caracteriza: "Estes queriam é mamar-me as becas e o sumito. Devem pensar que eu sou o Manel!"
 
Já o regresso a Portugal foi mais complicado. Estive praticamente 30 horas sem dormir. Tudo porque o pessoal decidiu passar a noite no aeroporto de Luton (Londres) em vez de ir para o hotel, com o argumento de que o vôo era muito cedo e não justificava gastar dinheiro com o quarto. Tudo bem, o dinheiro também me custa a ganhar...
Combinámos, então, fazer turnos para vigiar as malas. Estava-se sempre a ouvir: "Attention all passangers, don't leave you luggage unattended..." (em português: "Moços, mantenham as vossas malas debaixo de olho..."). Devia ser por isso que se via tanta gente sentada em cima das malas...
Até aqui nada de anormal. O problema é que a palavra "turnos" tem interpretações diferentes de pessoa para pessoa.
Para o Manel: "20 minutos depois de chegar, esparramar-me no chão e só dar notícias por voltas das 5:30 da manhã seguinte."
Para o Rui: "Ressonar que nem um suíno e, sempre que acordar dizer "Olha, óstias de camarão!!!", emborcar meia dúzia e voltar a dormir. 45 minutos depois, repetir.". Isto até às 5:00 da manhã.
Para o Carlos e Ramalho:"Jorge (em coro) descansa à vontade que nós tomamos conta da loja.". Passados 10 minutos, estavam de cabeça à banda, a babarem-se e a retorcer os olhos como se estivessem possuidos.
Umas horas depois acordavam e iam ao Costa (cadeia similar à StarBucks) e pediam 3 cafés - por sinal bons - (o nosso Mestre nunca se esquecia do cão de guarda... ). Quando acabavam diziam "Agora é que é. Isto vai ser uma directa até de manhã. "Até de manhã" queria dizer mais 20 minutos acordados.
Entretanto o Rui acordava e dizia "Olha, óstias de camarão !!!" e mamava mais umas quantas enquanto se queixava das condições do aeroporto e dizia que era impossivel conseguir dormir. O gajo fazia-me lembrar aquela anedota do peixe que estava num aquário e que tinha memória residual de 1 segundo. Cada vez que dava a volta ao aquário dizia: "olha um sofá!!!".

Por fim lá chegou a hora de voltar para a, como eles dizem, "Sweet Home".
Antes de passarmos o Check In, e para não termos novamente problemas, foi vê-los a despachar 2 garrafas de água de litro e meio, uma garrafa de Coca-Cola, um saco dos grandes de pão de forma, uma palete de fiambre e outra de queijo e o resto das óstias de camarão que tinham sobrado dos snacks do Rui.
Ao chegarmos a Lisboa, tinhamos à nossa espera uma percentagem muito significativa da família Ramalho, que providenciou um transporte digno para as nossas humildes habitações. Foi estranho não ver um chamuça atrás do volante ...
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